Pular para o conteúdo principal

Sobre "Animação Cultural", de Vilém Flusser

  O texto "Animação Cultural", de Vilém Flusser, trata da condição humana pela ótica da objetividade, que, no texto, ganha conotação diferente da comumente empregada. De impacto inicial é a noção inovadora, para mim, de que o Homem é objeto antes de ser animal, ou de que, minimamente, na nossa cultura, o Homem posiciona-se, quase inconscientemente, como objeto. Ao mencionar o "mito fundador" da civilização ocidental contemporânea – trata-se, de forma discreta, da narrativa da criação do Homem segundo o livro do Gênesis, na Bíblia – o autor parte de um ponto de vista incomum para tornar notório o teor objetivo impresso na figura humana por nós mesmos. Ainda mais fascinante é a constatação subliminar da fragilidade da nossa mente, que insiste em acreditar no controle absoluto que supostamente exercemos sobre os objetos e a natureza que nos cercam. Mais adiante, o texto explora a "revolução" orquestrada pelos objetos, que têm por interesse maior controlar a humanidade, ainda que de maneira velada. A percepção, ao longo da leitura, de que, na realidade, isso já ocorre em inúmeras situações é intrigante e perturbadora. As pessoas nascem, crescem e morrem em função de objetos, ao mesmo tempo que por causa deles e cercadas pelos mesmos. Contudo, a abordagem à cultura pelo narrador, como maior obstáculo a ser transposto pelos objetos, evidencia a imprescindibilidade da manifestação e da apreciação culturais, uma vez que a cultura é uma expressão inteiramente nossa, humana e uma parte do que somos, bem como nossa maior forma de resistência à subjugação objetiva. A questão suscitada pelo texto que mais instiga reflexão é se o Homem é mesmo agente, ou apenas paciente na esfera da existência/realidade contemporânea.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vídeo • Intervenção

Croqui | Parque Municipal

Parque municipal / externo - papel cartão texturizado, lápis B2

Potencial de Mudança na Concepção e Vivência dos Espaços

A forma de pensar a arquitetura sempre foi resultado de uma série de interações entre elementos contextuais. Em períodos históricos diferentes, as necessidades, os interesses e as técnicas distintos ou preferidos moldaram os estilos arquitetônicos e construtivos correspondentes. Na história recente, a disponibilidade e diversidade de recursos tornaram-se, também, influenciadoras no processo conceptivo da arquitetura. Dessa forma, o advento de tecnologias algorítmicas, produtivas e até criativas nos dois últimos séculos permitiu – e passa diariamente a permitir ainda mais – transformações radicais no pensamento arquitetônico. A concepção de novos espaços conversa, hoje, com todo tipo de inovação e a avaliação de novos conceitos enquanto eixos desse processo é, evidentemente, fomentadora de mudança nessa concepção. A parametrização, a prototipagem rápida e a fabricação digital são novos recursos que possibilitam uma arquitetura correspondente ao nosso período histórico, as técnicas e os ...